S.O.S. SOLIDÃO - DIFICULDADES DE SE RELACIONAR

Por definição, o namoro é uma etapa inicial da relação, podendo ser sincero e sério.De alguma forma, o namoro expressa uma verdade das pessoas envolvidas. Mesmo quando tudo parece apenas um jogo de sedução e há uma incapacidade de se abrir profundamente ao outro, existe sempre uma busca de encontro humano.

Talvez uma das razões deste medo de amar é que, neste mundo de Alice, de tantas maravilhas tecnológicas, vivemos um permanente: "não temos tempo... não temos tempo". Mesmo que certos programas de televisão combinem encontros de surpresa, ninguém se relaciona verdadeiramente no ritmo de compra e venda. O imediatismo impõe a necessidade de uma pronta satisfação. Não há tempo a perder com o convívio gratuito, com o processo lento do conhecimento mútuo, com os ritos facilmente considerados "rídiculos", sem os quais o amor é menos romance e se torna apenas mais um novo programa de computador. Garotos e garotas ficam com cinco, dez ou mesmo quinze parceiros numa balada. Disputam tal placar na micareta e, ao voltar para casa, há quem se queixe: "nesta noite, não beijei ninguém".

A liberação falaciosa, retratada na televisão, cinema e meios de comunicação, não ajuda a superar esta crise. Não bastam programas televisivos para tirar dúvidas e fomentar desejos antes não expressos. Tampouco, ajudam programas que ensaiam crianças pequenas a remedar posturas e questões que, normalmente, a vida nos traz na adolescência. Com cores e apelos sempre novos, a mídia em geral exerce a velha manipulação de transformar tudo em mercadoria, inclusive o amor ou namoro.

Em tempos sombrios, nos quais o espaço coletivo, a participação política e as perspectivas de esperança parecem encolher, de novo vale lembrar Jung "Onde o amor impera, não há desejo de poder e onde o poder predomina, há falta de amor". Ao ler tal afirmação, certamente, a maioria das pessoas sente o desejo de garantir para si a conquista de um amor mais verdadeiro e profundo. Este não nos virá, como em algumas telenovelas, de forma milagrosa ou mágica. Ao contrário, somos todos impelidos a amar e buscar ser amados do modo como somos e a partir de nossas complexas histórias de vida.

Se na escola e na vida, aprendemos que para atingir uma meta, é importante um método adequado, o psicanalista Eric Fromm defende que o amor também supõe um processo de aprendizagem. Nas sociedades indígenas e de profundo teor comunitário, esta educação para o amor se faz naturalmente, e desde a primeira infância, na inserção grupal. Sábia iniciação que nem isola as pessoas que se amam em uma redoma fechada, nem impõe um comunitarismo que restrinja a necessária intimidade de pessoa a pessoa. Este equilíbrio entre individualidade, relação a dois e comunidade dão ao namoro e à relação conjugal uma harmonia que nossa sociedade tem dificuldade de encontrar. A chilena Violeta Parra, em uma de suas mais conhecidas composições "Gracias a la Vida", imortalizada entre nós por Elis Regina, canta a união do amor romântico a uma postura social amorosa e terna para com todos os nossos semelhantes e a própria vida. Na bela canção, a enamorada Violeta distingue nos olhos de todos, o olhar querido da pessoa amada; pressente nos passos de todos, a aproximação sempre desejada de quem mais ama. A canção celebra um namoro que é um enamoramento pela vida. É fácil prever que a tais enamorados, a natureza, melhor cuidada, se oferecerá em presente de amor. E o mundo, transformado, será palco da evolução de pessoas apaixonadas.